Quando você convida alguém para sua casa, uma visita, ordenam as boas maneiras que se mostre gentileza e, em nome da boa convivência, se deva até ser um tanto condescendente com as idiossincrasias de quem é recebido. Eu tenho certeza que meu pai me “daria uma coça” se soubesse o que estou prestes a fazer com você meu leitor que é, nesta coluna, como que uma visita e que, portanto, deveria ser tratado com toda deferência e cortesia, mesmo que como anfitrião eu precisasse me abster de qualquer crítica a vossa pessoa. Contudo, em nome de nossa redenção político-civilizacional, não serei esse tipo de anfitrião. Parece que posso até ver meu velho pegando aquela vara de marmelo em cima do balcão e cortando meu traseiro a base de múltiplas chibatas, tantas que eu poderia sentir na boca o gosto do marmelo. Sacrificarei, então, a gentileza no altar da verdade histórica. Enfim, lá vai (pai meu, seja gentil): A culpa de tudo isso é sua, caro leitor.
Não me acovardo agora, já no segundo parágrafo, mas adendo que quando digo “sua”, quero dizer também minha, portanto, nossa. Afinal, não há miséria ou tragédia histórica que não seja culpa de seus personagens em maior ou menor grau que seja. Não pense que essa minha delicadeza, ameniza o que disse acima. Apenas lembrei que depois da “coça” do pai, vinha o afago da mãe.
Permita-me explicar melhor aonde chegamos, expondo de onde viemos e porque tudo isso é nossa culpa e, mesmo que preferíssemos terceirizar tais responsabilidades, ao fim e ao cabo, seremos nós mesmos as vítimas.
Se a história é mestra da vida, parece que faltamos a todas as aulas deste “professor”. Logo, se ora lamentamos a barafunda na qual estamos metidos neste Estado em estado lastimável, quanto disso tudo também é nossa culpa ou responsabilidade? Não, não acredito em dívida histórica, mas, convenhamos, em algum momento nossa inação tornou-se o nosso padrão de ação.
Imagine-se voltando no tempo ao ano de 1870, dezenove anos antes do golpe republicano do 15 de Novembro, evento este que de bom só trouxe o relativo feriado e olhe lá ! Naquele nem tão longínquo ano, as ideias republicanas pululavam e logo o Partido Republicano Paulista seria criado (1873) e o fim da escravidão, essa vergonha humana, estava próximo e quem dera nunca tivesse conhecido a modernidade e desaparecido na antiguidade. A economia do II Reinado (1840-1889), pelas hábeis mão políticas do mais longevo dos governantes, D.Pedro II, apesar de sobressaltos, rumava para encontrar a Europa ou quem sabe os EUA em algum ponto de seu crescimento. Mesmo a Guerra do Paraguai (1864-1870), o mais sangrento conflito platino, serviu para firmar as peculiaridades das nações envolvidas e para se moldarem personagens de vulto e heroísmo como Osório, Tamandaré e, claro, Caxias. Figuras estas que, lamentavelmente, se perderam no passado e não mais são memoriadas nas salas de aula.
Quando, enfim, exaustos em ver a abominação da escravidão, Princesa Isabel e figuras como Nabuco e Patrocínio, fizeram por onde legitimar a Abolição total da escravidão no Brasil. Homens que ainda labutavam pelas mãos e pés de seus escravos, não puderam vislumbrar um III Reinado conduzido por uma mulher Católica e, sedentos por poder, aliaram-se aos insatisfeitos da maçonaria, expulsos estes em 1864 da Igreja Católica pela encíclica de Pio IX intitulada Syllabus Errorum, uma lista dos erros dos liberalismos daqueles tempos. Faltavam as artimanhas dos Positivistas que, sem peias ou honras, espalharam a boataria sobre a prisão de militares ou mesmo a falsa nomeação de Silveira Martins a chefia do ministério, sabedores que entre este e Deodoro da Fonseca havia uma velha rixa passional envolvendo a Baronesa do Triunfo que preteriu Deodoro em favor daquele. Isto mesmo, fofocas envolvendo uma namoradinha da juventude do “proclamador” do golpe republicano alimentaram o fatídico dia em que a “Res” “Publica”, a coisa do povo, se fez com o “povo assistindo a tudo bestializado” sem nada entender, como o disse à época Aristides Lobo.
Está me acompanhando até aqui, meu leitor? Acho que já temos um primeiro vislumbre sobre a responsabilização do brasileiro médio no sucedido: Aquele que deu ouvidos às primeiras fakes News republicanas ainda no final do XIX, sejam os mais afeitos a boataria do que aos esforços de confirmação, por ignorância ou indiferença, ou estes últimos tão assim indiferentes à política, quanto apreciadores da esbórnia. Outro século, mesmo comportamento, não lhe parece?
Nasceu, então, a República dos Coronéis na qual até defuntos depositavam votos em urnas nada secretas, a fraude imperava e, ao seu lado no trono oligarca que substituiu o trono aristocrático, reinava o clientelismo subserviente do eleitor. Assim, fomos alçando ao poder os piores preparados, sociopatas preocupados tão somente com suas causas privadas e, como estamos acostumados, tratando do bem público como seu fosse.
Não pense você que o fim desta pantomima inicial com a revolução de 1930 nos resgatou para algum porto de decência política, afinal, Getúlio Vargas tornou-se um ditador com fortes tons fascistas. Vamos ignorar o fato deste tiranete ter saído pela porta da frente após quinze anos sem eleições, com censura, perseguições, prisões e muita corrupção? E que ainda assim, seus hipnotizados seguidores imploravam para que ficasse só pelo tempo de mais uma ditadurazinha!? Imagine se Mussolini não tivesse sido morto e o povo clamasse pela sua permanência?! Se Hitler não tivesse partido em linha direta para o inferno e, sobrevivendo, fosse eleito novamente?! “Ah, mas não se pode comparar Hitler a Vargas”. Por que não? É só uma questão de proporção, não de fundamento.
E o que dizer do desenvolvimentismo corrupto de Kubitscheck? O populismo piegas e, felizmente, de curtíssima duração de Jânio Quadros, além de seu flerte com a ditadura comunista cubana? Vamos ignorar que Che Guevarra visitou o Brasil naquela que seria a década mais quente da guerra fria?! E Jango? Preciso falar da sua agenda claramente marxista ? Aliás, este foi único o momento no qual aquele que nomearam patrono da educação, Paulo Freire, outro marxista, teve uma breve oportunidade de tentar implantar seu método educacional (aqui digo “método” por não ter tempo para explicar que se trata, na verdade, de um manual do revolucionário mirim). Bom, o que se segue é conhecido. Vinte um anos de um regime civil-militar e, por mais que você, meu leitor, queira tecer loas ao período, lembre-se que não são de ditaduras que são feitas as verdadeiras democracias, republicanas ou não.
Veio então, aquela época que nosso dinheiro era de mentira. Tipo, dinheiro do jogo Banco Imobiliário. A moeda foi de Cruzeiro pra Cruzado e deste para Cruzado Novo tendo emagrecido em seis zeros em apenas dois anos e meio. Maravilha ! Paraíso republicano. Isso não se esquecendo que Tancredo fora eleito indiretamente — bela republiqueta — e morreu dando lugar ao vice, Sarney. Depois, finalmente, elegemos um presidente pelo voto direto, Collor. Este logo mostrou seu lado marajá e roubou nosso dinheiro, confiscando as contas e aplicações bancárias enquanto se locupletava com dinheiro público e lá se foi ele “impichado”. O primeiro presidente da república eleito pelo voto direto após 30 anos, o último havia sido Jânio Quadros em 1960-61, nos entregava mais uma vez a um vice, Itamar Franco. Me diga se não parecemos passageiros de um ônibus desgovernado, ladeira abaixo, em uma via toda esburacada?
Agora, vem o plano real. Coisa boa, direi eu? Sim, ao menos veio a estabilidade, porque não se suportava mais a hiperinflação e nem mesmo os comunistas gostam de partilhar crise. Eles gostam mesmo é das regalias de um capitalismo estável. Contudo, não posso esquecer dos “apagões” ou do maior engodo da Nova República: A Estratégia das Tesouras que impediu o nascimento de uma “direita” orgânica no Brasil. Vamos ainda fingir que Fernando Henrique Cardoso não foi um dos grandes divulgadores do Gramscismo no Brasil?
Neste ponto, confesso, eu gostaria de pular avante em outro tempo de nossa história, mas, infelizmente, vieram Lula 1, Lula 2, Dilma 1 e Dilma 1 e meio. O que dizer da maior expropriação estatal do dinheiro público? “Nunca antes na história deste país” fomos surrupiados em um nível praticamente industrial, diria eu. Confesso que aquela imagem de Lula chegando na “hospedaria” da polícia federal pra passar aquela temporada de dezoito meses, me deu alento e alguma esperança. Mas, logo depois, todas as celas foram abertas, os urubus carniceiros saíram em revoada felizes e esfomeados. Mesmo tendo um interregno com Bolsonaro, no qual se vislumbrou que talvez não fosse uma perda total e que talvez fosse possível algum conserto desta tal republiqueta que parecia, até ali, aquilo que é sem nunca ter sido. Eu me nego a falar sobre a pandemia, mas é preciso relevá-la quando se avalia o governo de Bolsonaro 1.
Bom, enfim, cá estamos: Lula 3, o retorno do mal. Odeio clichês, mas esse se encaixa a forma como nenhum outro: Nada está tão ruim que não possa piorar. Aliás, este poderia ser o slogan permanente deste governo. Tudo isso que nos aflige desde 2023, só é novidade aos recém nascidos ou ignorantes plenos. Há alguns, é verdade, que fingem que está tudo bem, mas estes são espécies que perderam sua humanidade, pois, alimentados no mesmo lugar aonde chafurdam com muuuuito dinheiro público, não mordem a mão que os fomenta.
Se uma república é aquele governo que, como o disse Daniel Webster, frase depois expropriada por Abraham Lincoln, “do povo, pelo povo e para o povo”, claramente, se pode considerar que neste recanto esquecido pela lógica, pela honestidade e pela normalidade jurídica governamental, se tornou o governo que tira dinheiro “do povo”, vive como nababo “pelo povo” e quer agora também pensar “para o povo”.
Finalmente, depois de expor como chegamos até aqui, trilhando os caminhos esburacados de nossa história, posso lhe imputar a culpa ou responsabilidade, não pelos erros particípios, mas pelos erros futuros dos pretéritos. Meu pai diria “desculpa de aleijado é a muleta” (perdoem-lhe, eram outros tempos), ou seja, há sempre uma desculpa para não fazer o que deve ser feito. Lamentação sem ação, inação e, principalmente, ausência de vida intelectual. Neste último ponto, sou antecedido por aquele que primeiro nos alertou sobre nossos erros, lá por volta de 2009, o professor de muitos, Olavo de Carvalho. O velho mestre nos dizia amiúde que deveríamos estudar, ler, escrever, publicar jornais, ocupar os espaços públicos e, especialmente, a mídia e as universidades para, só então, adentrarmos a política. Muitos quiseram comer o mel sem abrir o pote.
Veja que a esquerda genérica, nos últimos quase 70 anos, pacientemente, fez isso: Ocupou espaços antes do poder. Você teria essa paciência? Sentar o traseiro numa cadeira e estudar por anos antes de sair espalhando “opiniões” como farinha no ventilador? (disse farinha, mas pensei em algo mais escatológico). A boa notícia é que a esquerda não gera mais intelectuais. A esquerda não estuda mais desde que escolheu a militância desconectada da realidade: progressismo, identitarismo, wokismo e outros “ismos” fundados em argumentos sentimentais e não factuais. Qual o melhor exemplo hoje de intelectual de esquerda? Filipe Neto? Janja? Marilena Chauí? “Ora, porr@”, diria o velho Olavo.
Meu caro leitor. Não se pode combater décadas de dominação cultural sem preparo, caso contrário estaremos tagarelando platitudes com sinal trocado. Talvez meu leitor esteja agora um tanto recalcitrante ao dever de estudar e, acredite, todos temos este dever. Estudar a nossa história, a história das grandes nações amigas ou inimigas, estudar política, marxismo, filosofia... enfim, erudir-se é dever de todo aquele que diz querer um país melhor. Aí está, meu nobre e, a esta altura, cansado leitor, a sua, a minha, a nossa responsabilidade: sermos melhores individualmente. Esse foi o erro cometido pelos nossos antepassados. Isso é o que esperam de nós os sociopatas que estão no poder. Essa inação, esse comportamento de rebanho manso e ignaro. Por isso, é exatamente o que não vamos fazer. Não permaneceremos um dia sequer na ignorância do dia anterior. Se puder partilhar comigo e com aqueles que lhe são próximos e caros esta missão pedagógica e cívica, talvez, talvez, possamos ser redimidos da culpa.
