Mal Votamos
O brasileiro vota com a emoção e não com a razão
7/24/20267 min read


Nos tempos homéricos, lá pelo oitavo século antes da Era Cristã, o coração era considerado a matriz de todas as emoções, de todo o pensamento ativo, da ética e dos juízos de valor. Ainda que, naquele tempo, não se fizesse distinção entre o processo psíquico e a função física do órgão, o coração era o chefe do corpo.
Uns três séculos depois de o suposto autor da Ilíada e da Odisseia ter centralizado no diafragma a origem da mente ativa, Diógenes, outro grego (sempre eles), foi pioneiro ao afirmar ser, na verdade, o cérebro a morada do pensamento. Para ele, o processo incluía a absorção de todas as ideias que flutuariam no ar à nossa volta e que, depois de misturadas ao sangue, eram conduzidas ao cérebro para, só então, serem consideradas pensamentos, sendo os detritos dessa produção eliminados pela expiração.
Mais ou menos à mesma época de Diógenes, outro heleno, Alcmeon, da cidade de Crotona, hoje na Itália, cimentou o status do cérebro como sendo a sede da razão humana. Foi a partir da premissa de Alcmeon que o pai da medicina, Hipócrates (adivinha? Grego), construiu sua Teoria Humoral, associando os quatro humores — a Bile Amarela, a Bile Negra, a Flegma e o Sangue —, respectivamente, a quatro órgãos, quais sejam: o fígado, o baço, o cérebro e o coração. Qualquer desequilíbrio na disposição desses humores seria considerado uma doença. Aqueles que, por acaso ou sabedoria, recordarem das aulas de literatura do ensino médio farão a correta associação dos humores hipocráticos com a melancolia do Spleen baudelairiano do século XIX.
Curiosamente, depois de os gregos predecessores terem coroado o cérebro, Aristóteles, o último do trio parada dura da filosofia clássica, depois de Sócrates e Platão, torna o coração, novamente, a capital das faculdades mentais das almas humanas.
Ora, sabemos hoje, ou deveríamos todos saber, a despeito destas e de outras reviravoltas científico-filosóficas, que cada átimo de sensação, seja ela uma topada de mindinho contra a quina da mesa ou uma avassaladora paixão, foi fabricado e distribuído a partir do frio e úmido cérebro.
Mas toda esta introdução, leitor, caso você tenha resistido até aqui, serviu para construir minha base argumentativa, na qual defendo que, apesar de todo o avanço científico, ainda existem certos aspectos de nossas ações públicas condizentes com o posicionamento aristotélico.
Como escolhemos nossos representantes políticos me parece ser um conveniente exemplo para esta discussão.
O senso comum costuma não só aceitar como estimular as escolhas feitas com o coração, reconhecendo a voz deste órgão como sendo capaz de tomar decisões supostamente acertadas. Na verdade, em muitas situações, prega-se que são as únicas decisões que conduzem à felicidade. Literalmente, ledo engano... Mas isso é outro assunto.
Segundo o afamado historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, uma eleição é exatamente a manifestação de uma relação cardíaca. Um pleito eleitoral, para ele, é uma questão de emoção, e não de racionalidade; caso contrário, a grande maioria dos eleitores e candidatos não estaria apta a participar. Veja! Quantos candidatos têm a mínima formação para ocupar cargos no Legislativo, por exemplo? Lembre-se: serão eles os responsáveis pela elaboração de leis. Não seria RACIONAL exigir conhecimento jurídico para tanto? E dos eleitores, o que se pode dizer? Ora, quantos têm noções de economia, administração ou, no mínimo, do funcionamento das engrenagens políticas para que possam, de forma RACIONAL, escolher seus representantes?
E, por favor, não me venham com aquele pensamento de matilha ou, mais pertinentemente, de bando, ao defender que tal candidato “me representa”! Quando se escolhe um político por sua ligação com o grupo ao qual o eleitor pertence, permitindo a formação das chamadas bancadas, essa relação é, óbvia e puramente, emocional. Temos a ingênua noção de que basta, unicamente, essa relação de pertencimento do candidato para que o escolhido saiba quais as melhores ações a serem tomadas. Seria como um tuberculoso procurar outro tuberculoso para curá-lo, em vez de um médico!
Mas sim, é assim que votamos. Fazemo-lo com base em opiniões fundadas em sentimentos, e não embasadas em conhecimento racional. Essas opiniões, repito, entendidas como escolhas emocionais, conduzem a atitudes que o indivíduo toma diante de algo sem que esse algo tenha importância verídica. O sujeito precisa do objeto para emitir a opinião; assim, ter razão naquele ponto sobre o qual se emitiu a opinião é mais importante que a verdade sobre o próprio objeto.
A opinião se torna, desta forma, escrava da vontade, não vem do conhecimento, mas de um apetite, de uma vaidade que se interpõe entre o objeto e a inteligência turvando a vista de quem o mira.
Como nossas opiniões germinam de nossas emoções mais primitivas, nossa dignidade passa a residir nesse subjetivismo obstinado que reduzirá todas as coisas a opiniões, e tentar destroná-las é um pecado imperdoável, como, brilhantemente, constata Gustavo Corção ou, ainda, como afirma Roger Scruton sobre a sacralidade e a polaridade da opinião emotiva, que parece “só poder ser discutida e compreendida por aqueles que, por algum ato de fé, já assumiram suas principais conclusões”.
Mas como é possível, nesta vastidão de emoções humanas, existirem, então, opiniões semelhantes? Simples. O ser humano busca constantemente identificação com a tribo, pertencimento. Assim, como nos diz Tocqueville, “temendo mais o isolamento que o erro, os indivíduos compartilham das opiniões da maioria”; e, como até os reis são escravos da opinião, “não existe fator de êxito ou de força mais eficiente que a opinião pública”.
Obviamente, este fato não é desconhecido dos proclamados oximoros “políticos de sucesso”.
Mesmo sendo surpreendente a facilidade com que uns poucos governam muitos, ainda assim os homens se submetem aos seus governantes, que, de acordo com David Hume, só possuem, para sustentá-los, a opinião pública a seu respeito. Para vencer uma eleição ou permanecer no poder, é necessário, portanto, conquistar a opinião favorável e, para fazê-lo, apela-se ao dócil animal que habita em todos nós e que atende pelo nome de emoção. Tão manso é o espírito emotivo que não são necessárias armadilhas elaboradas para fisgá-lo. Um azáfama ideológico aqui e umas migalhas de temor acolá e, “zap”, arapuca desarmada. Atente para o fato de que, mesmo enredada nas malhas do caçador, a vítima torna-se resignadamente obediente ao seu algoz e, concomitantemente, extremamente agressiva aos concorrentes do seu captor. Acho que podemos dizer que o animal político foi, dessa forma, domesticado, tornando-se uma besta casmurra e fiel.
Uma vez consumada a imolação da mente pensante, a estética do discurso e a voz que o pronuncia se tornam mais importantes que o seu conteúdo. Sabedores disso, os habilidosos demagogos que se ufanam de sua retórica, como diz Tismaneanu, “santificam os métodos mais bárbaros em prol dos fins mais utópicos”. Afinal, o menu da oratória política não precisa ser racional; basta que agrade ao paladar do coração. Dessa forma, o discurso pode permanecer na superfície, dispensando qualquer significado lógico-racional.
Perceba que a existência das notícias falsas, as fake news, é a prova desta intenção. A falsidade da informação não é acidental. Ninguém tropeçou no teclado e, inadvertidamente, tuitou uma mentira! Ela é intencionalmente produzida para fisgar o incauto ou manter cativo o rebanho eleitoral. Prova deste meu argumento é que a receita contra o desenvolvimento desta cardiopatia, a postura política emotiva, é o conhecimento, não é?
Aqui é pertinente mencionar que as notícias falsas não são a única forma de se angariar apoio pela comoção. É possível emitir uma notícia sem nenhum elemento falacioso e, ainda assim, não reproduzir a verdade. Eu chamo isso de “AlmostNews”: a supressão sutil de partes da notícia, deixando que a emoção já inflamada ou cooptada complete as lacunas, formando a opinião que se deseja despertar.
Também é relevante mencionar que não somente o consumo de fake news ou de notícias manipuladas é responsável pela reprodução do eleitorado emotivo. A total ausência de consumo de informação é, talvez, a mais severa e agressiva das causas da ignorância eleitoral.
Seja através da ingestão imprópria, seja pela inanição informativa, o fato é que estes juízos, nascidos em uma grota escura deste coração aristotélico, são puramente sentimentais. Isso, inclusive, explica as reações igualmente emotivas quando uma opinião dessa espécie é questionada por outra opinião de mesma mãe, mas de pais diferentes. Por isso também, eleitores promovem duelos pelas redes sociais, especialmente naquela que considero o faroeste das mídias: o X, antigo Twitter.
Lembre-se de que, naqueles que saem às ruas, físicas ou virtuais, idolatrando demagogos e ignorando a história, não há racionalismo político, apenas pulsão emocional. Em tempos tão medonhos como estes, com um contingente eleitoral como o brasileiro, que possui a profundidade política de uma lágrima de pulga, surgem indivíduos que aparentam ser verdadeiros baluartes do estadismo. Mas, como diz Karl Kraus, “quando o sol da cultura está baixo, até os anões lançam longas sombras”.
Tudo se resume, afinal, a nos encorajarmos a demitir o coração de seu cargo executivo, tendo como alegação sua comprovada inépcia em assuntos que devem ser conduzidos por um funcionário de carreira mais apto, como o cérebro.
Embora possa parecer simples competir e vencer a opinião emotiva que conduz nossas ações políticas, é Milton quem nos afirma ser tarefa hercúlea fazer consumir conhecimento em escala suficiente para imunizar toda uma população contra o voto sentimental. Afinal, diz ele, “ninguém dará importância a estudar ou saber mais que o necessário, porque é certo que ser ignorante e preguiçoso nas altas esferas, ou um asno imperturbável nas demais, constitui a melhor garantia de uma vida feliz”.
Enfim, a esta altura, já devo ter angariado “opiniões” suficientes a meu respeito para me dar por enfastiado. Só resta, epilogamente, considerar que talvez nossa história pregressa, ou mesmo experiências mais recentes, nos permitam arrematar que, diante de tão recorrentes resultados tragicômicos dos pleitos eleitorais, talvez fosse mais adequado buscarmos localizar a origem de nossas opiniões e decisões políticas não no coração ou no cérebro, mas, muito mais justamente, nas vísceras.
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