Qual Brasil?

Nossa história começa quando este que vos escreve tentava relaxar naquele espaço que em qualquer modelo ou nível educacional pode ser chamada de antessala do inferno: a Sala dos professores.

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7/21/20268 min read

Nossa história começa quando este que vos escreve tentava relaxar naquele espaço que em qualquer modelo ou nível educacional pode ser chamada de antessala do inferno: a Sala dos professores. Lá são explicitados os verdadeiros sentimentos dos professores para com os alunos. Ali são ditos os “segredos de liquidificador”, como descreveu Cazuza: as escandalosas constatações que se creem privadas quando são, de fato, públicas. Pois bem, lá estava eu bebericando meu café frio e muito doce, como soem serem todos os cafés de sala dos professores, ostentando minha camisa do Brasil por sob o jaleco, quando se aproxima de mim um daqueles barbudinhos recém-formados, com aquele ar de quem crê que as aulas de Marx, Foucault e Derrida lhe banharam em águas lustrais e o tornaram puro e perfeito em sabedoria e ideologia. Claro! Ele tinha que estar trajando a indefectível camiseta vermelha com a famosa estampa do rosto de Che Guevara. Aquela cara de pura desfaçatez do sanguinário revolucionário cubano popularizada a partir da foto tirada em 1960 por Alberto Korda.

— E esta camisa? Me pergunta ele, todo prosa, apontando para minha amarelinha.

Vi aqueles olhos vermelhos, tingidos pela marijuana, me fitando ousadamente (aqui, para uma melhor ambientação, imagine uma música tétrica de filme de terror estilo “Psicose” do Hitchcock). Poderia jurar que cheguei a imaginar aquela figura diante de mim com orelhas e nariz pontudos e a boca salivante e cheia de dentes que criam ser eu um dos porquinhos relapsos que construiu sua casa com palha.

— Ora, camisa do Brasil. Disse eu, como um bom porquinho dedicado dentro de minha casa de tijolos.

— Qual Brasil? Indagou, em crescente insolência, meu lobo mal guevarista.

Queria poder dizer-lhes, meus caros, que esta seria uma resposta fácil e ela até poderia ter sido se não tivessem muitos dentre nós, daqueles que agora margeiam à direita do rio, dormitado em berço esplêndido enquanto a esquerda tomava os postos intelectuais em universidades, nas instituições culturais, no governo e na imprensa e assim nos mantivéssemos hibernando intelectualmente por mais de sessenta anos.

Já que estamos fabulando e confabulando me permitam levar-lhes a uma viagem pela história deste Brasil que meu colega revolucionário me instou a definir. Mas antes, uma prova surpresa (eu sou professor, o que vocês esperavam?):

Vocês sabem quem foi Tibiriçá? José Bonifácio? João Cândido? Maria Filipa? Dom Nuno Álvares Pereira? Cabral tinha ou não intenção em encontrar o Brasil? Quem foi a primeira mulher a governar o Brasil? O que Tiradentes fez efetivamente na Inconfidência Mineira? O que simbolizam as cores de nossa Bandeira Nacional? E o lema nela impresso, o que significa? E qual o nome oficial de nosso país e o qual seu significado?

E aí? Sem colar do coleguinha, tirou quanto na prova? Não vou passar pano (afinal, não trabalho na Globo News), mas se tirou menos que cinco, não se desespere, você está na média geral do brasileiro. Não vou dizer que você não tem culpa sobre tal ignorância, porque a vida adulta pressupõe responsabilidade sobre o próprio horizonte de consciência. Contudo, nosso currículo escolar vem sendo construído, ou melhor, desconstruído, para fazê-lo ignorar nossa história e, pior, sentir-se avexado por ela ao ponto de virar motivo da chacota — a enferrujada arma dos covardes — entre seus pares quando se tem a obrigação de lembrar dela, como quando nas escolas, ao 7 de setembro, os alunos são obrigados a cantar o hino nacional diante da bandeira.

Perceba que mesmo ante ao crescente despertar verde-amarelista, especialmente a partir da campanha e eleição em 2018 de Jair Messias Bolsonaro à presidência, a História do Brasil continua, em grande parte, ignorada.

Uma simples olhadela no material didático de seus filhos irá mostrar que nosso currículo escolar nacional de história é composto por 70% de conteúdos em História Geral e apenas 30% de História do Brasil. Isso já seria chocante para um povo que pretende se tornar nação, não fosse o fato deste mero terço ainda ser carregado de ideologias, lacunas monstruosas de conteúdo, incorreções e interpretações tendenciosas e simplórias.

Parafraseando Santo Agostinho (354dC - 430 dC), não se pode defender o que não se ama e não se pode amar o que não se conhece. Ora, o que é a nação que não o amor pela história de um povo e a sensação de pertença a um coletivo e seu território? Se não há história, não há nação. Simples assim.

Não, você não está delirando ao imaginar um “dedinho” do globalismo na constituição curricular brasileira. Só que, na verdade, são duas mãos inteiras a afastar o brasileiro de seu amor pátrio criando um abismo intelectual que se reflete na nossa ânsia em não sermos nós. Se duvida desta minha última afirmação verifique o quão mimético somos em termos culturais. Mas, enfim, entenda que esta estratégia visa tornar mais fácil convencer um povo a abrir mão de sua soberania, afinal, se nele não há amor nenhum pela pátria, muito mais facilmente ela se torna dispensável.

Vou repetir e peço a você que me imagine falando bem devagar tentado dar a ênfase que esta conclusão merece: N-o-s-s-o c-u-r-r-í-c-u-l-o é f-e-i-t-o p-a-r-a n-ã-o n-o-s s-e-n-t-i-r-m-o-s b-r-a-s-i-l-e-i-r-o-s e-m n-e-n-h-u-m a-s-p-e-c-t-o... e não ajuda em nada termos uma maioria de professores revolucionários marxistas, gramscistas, et caterva.

Neste ponto você pode estar alegando coisas como “Fazer o quê?”, “A escola ficou no meu passado” ou, pior, a postura derrotista: “As coisas são assim”. Bom, permita-me contar uma pequena história que talvez lhe impulsione aos estudos.

Em 1826, Beethoven (1770-1827) compôs o seu último quarteto refugiado no interior da Áustria após seu irmão, Karl, tentar o suicídio. Lá pelas tantas, o compositor anotou na partitura o que pode ter sido uma sua indignação diante da forma que sua música ganhava, mas que podemos transpor para nossa condição: “Der schwer gefasste Entschluss” (a decisão alcançada com dificuldade) escreveu ele e, logo abaixo, as palavras “Es Muss sein?” (Deve ser assim). E daí? Bom, Milan Kundera (1929-2023), em seu livro A Insustentável Leveza do Ser, interpretara tais anotações de Beethoven como sendo uma postura otimista do compositor diante do destino:

“(...) Beethoven considerava o peso como algo de positivo. “Der schwer gefasste Entschluss”, a decisão gravemente pesada está associada à voz do Destino (“Es muss sein!); o peso, a necessidade e o valor são três noções íntima e profundamente ligadas: só é grave aquilo que é necessário, só tem valor aquilo que pesa.”

(Kundera, Milan. Insustentável Leveza do Ser. Parte I, Capítulo 15, p.38. Editora Record, 1983)

Se ajuntarmos a esta conclusão o que nos insta a pensar filósofo e teólogo francês Antonin-Gilbert Sertillanges (1863-1948) — em uma obra que recomendo fortemente a leitura chamada “A Vida Intelectual” — entendendo que sacrifício é dar em imediato algo de valor para colher algo de maior valor em um ponto distante de sua vida. Acredito que o dispender de nosso tempo de lazer, por exemplo, em prol do futuro da nação é um investimento mais do que justificável, é até necessário.

Agora podemos enfim concluir, como Kundera, que só é grave aquilo que é necessário e só tem valor aquilo que pesa e se, como Beethoven, assumirmos que as decisões difíceis são aquelas que devem ser tomadas e, por fim, como Sertillanges, entendamos e aceitemos que precisamos dar algo de valor, como nosso tempo, para nos dedicarmos a estudar seriamente o Brasil. Só então, em algum futuro, nos tornaremos de fato Brasilienses.

Foi assim mesmo que escrevi: Brasilienses e não Brasileiros. Ora, como se chama aquele que trabalha no garimpo? Garimpeiro. E aquele que trabalha no açougue? Açougueiro. E aquele que extrai pau-brasil? Brasileiro. Nosso adjetivo pátrio faz referência, não a uma origem, mas a uma atividade. Pode parecer só um detalhe, mas não é bom sinal quando erramos ab origine.

Mas deixemos este detalhe curioso de lado porque, enquanto divago, o lobo vermelho está lá fora soprando minha casa de tijolos sem sucesso. Sim, sem sucesso, porque, por obrigação e por paixão, eu estudo. Corram todos vocês porquinhos de suas casas de palha e madeira para a fortaleza do conhecimento junto comigo e me permitam, enfim, prover-lhes de um guia rápido de viagem.

Se você for do tipo não afeito a leitura ( lamento ), não se desespere. Há professores na ativa lutando de suas trincheiras pelo resgate histórico brasileiro. Figuras como Thomas Giulliano que tem se especializado em prover cursos online ou o professor Raphael Tonon que tem orientação historiográfica cristã ou ainda o professor Raphael Nogueira, são excelentes sugestões. Todos ótimos provedores de conhecimento online. Contudo, eu recomendo, explicitamente, a leitura atenta de algumas obras e autores que foram trazidos de volta à vida por editoras como a do Centro Dom Bosco que tem feito um brilhante trabalho de resgate historiográfico.

O Padre Raphael Galanti (1896-1917), por exemplo, teve sua obra “História do Brasil” em seis volumes recentemente reeditada pela livraria do Centro Dom Bosco. Esta seria uma obra referencial indispensável e você pode começar por ela.

Há ainda uma reedição de outra brilhante “História do Brasil” de Pedro Calmon (1902-1985), também em cinco volumes da editora Kirion (sim, a história do Brasil é bem maior que sua apostila de cursinho).

Você pode economizar uns tostões indo até a Livraria da Câmara dos Deputados e procurar por João Camilo de Oliveira Torres (1915-1973) que tem uma dezena de títulos que vão desde interpretações sobre a monarquia ou o Positivismo no Brasil até o federalismo brasileiro. Infelizmente, como muitas outras coisas do serviço público brasileiro, a livraria da câmara teima em ficar indisponível com frequência. Mas nada que uma busca nos sebos pelo mesmo autor não resolva.

Já que falamos em livros usados, se você for um ratão de sebo, recomento um anti-histamínico pra poeira e Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) e várias de suas obras que tem temas específicos como os Holandeses no Brasil, os Índios, a independência ou mesmo o seu “História Geral do Brazil”. Neste caso você estaria se aprofundando em algum tema pontual ou fazendo o que nós historiadores chamamos de História comparada.

Já que você está no sebo e a esta altura o antialérgico já fez efeito, procure por aqueles historiadores mais raízes como Capistrano de Abreu (1853-1927) e seu “Descobrimento do Brasil” ou outro seu o “Capítulos de História Colonial”. Na mesma linha deste historiador, posso aconselhar ainda a leitura de autores como Oliveira Vianna (1883-1951) ou Hélio Vianna (1908-1972).

Se a poeira lhe incomodou, eu volto aos ascetismo das compras online. Impossível compreender o Brasil por completo sem estudar os conceitos que envolvem raça e miscigenação. Para tanto posso sugerir “Uma Gota de Sangue”, escrito por Demétrio Magnoli (1958-) e editado pela Contexto. Ainda sobre o tema do comércio humano e trabalho compulsório, para lhe dar outra perspectiva além do usual homem-branco-mal, leia “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos” de Robert Davis (1948-), pela Vide Editorial.

At last but not least, o sempre pouco entendido e muito ignorado polímata Gilberto Freyre (1900-1987), irá lhe permitir visualizar as diversas nuances íntimas de um Brasil que se desenvolve desde a "Casa Grande e Senzala", primeiro título de sua mais conhecida trilogia, passando pelos "Sobrados e Mucambos", chegando, enfim, ao "Ordem e Progresso". Todas leituras de imenso fôlego.

Depois de ter, certamente, antevisto o imenso esforço necessário para conhecer nosso rincão maior e antes de lhe deixar em paz para continuar seus estudos, eu seria muito relapso se não dissesse que estudar Brasil é estudar a Europa e, em evidente destaque, aprender sobre Portugal. Assim, ler o português João Ameal (1902-1982), que hoje é mais facilmente encontrado em novas edições do Brasil do que até mesmo em Portugal, é a receita. Sem obras como História da Europa (5 volumes) ou, especialmente, História de Portugal (1 volume), ambas também impressas pelo Centro Dom Bosco, fica quase impossível compreender a história da nossa nação-mãe.

Acho que já posso lhe dizer que meu colega, o Guevarista soberbo, deixou-me em paz após perder o fôlego em tanto soprar sem nenhum sucesso. Só lhe restou alimentar o monstro do seu ressentimento por mim. Algo que, aliás, já lhe advirto: Aqueles que sabem serão sempre vistos como inimigos por aqueles que não sabem ou, dito de outra forma, a verdade incomoda aqueles que só têm a vaidade como escudo. Esteja preparado para perder amigos e influenciar pessoas... e boas leituras !