Ventos do Norte

Aqui no sul, temos um hábito. Naquelas tardes quentes de verão, que fazem parecer que o sol veio dar uma espiada mais de perto no que andamos fazendo, quando sopra uma “fresca” – um vento ameno vindo de alguma plaga gelada – se corre a escancarar as janelas pra arejar a casa

POLÍTICAANÁLISE

7/21/20263 min read

Aqui no sul, temos um hábito. Naquelas tardes quentes de verão, que fazem parecer que o sol veio dar uma espiada mais de perto no que andamos fazendo, quando sopra uma “fresca” – um vento ameno vindo de alguma plaga gelada – se corre a escancarar as janelas pra arejar a casa. Sempre há, contudo, uma senhora ou outra menos dada a arejamentos, mais ressentida, que tenta fechar toda e qualquer fresta por onde esses ventos possam entrar. Claro que não estou falando de vento, mas de um “E-vento” específico: Trump II, o retorno do Laranjão.

Assisti à posse do 47º presidente americano ao vivo pelas redes sociais porque queria perceber a reação das pessoas no Brasil ao acontecido. Fiquei com a sensação de que, para muitos brasileiros, foi como se tivessem tido um segundo réveillon — a palavra significa originalmente “despertar” — assim, o despertar do novo ano no dia primeiro, o original, e o do dia 20, em comemoração à volta dos que nunca deveriam ter ido, representados na posse de Trump.

Esse grassamento desmedido da esperança, como se a ocorrido lá fosse, automaticamente, dar rumo cá à normalidade, à sanidade política-econômica-jurídica-filosófica, pode levar a algum grau de frustração. Explico. Cá não serão feitos decretos de efeito imediato como lá. Vocês não vivem no Brasil? Nós somos, sim, câmaras de eco do muito que se faz por lá e por outros cantos e redondos mais evoluídos politicamente do que o hospício Brasil. Lembre-se, contudo, que fomos os últimos a abolir a escravidão entre os civilizados, a revolução industrial chegou aqui com atraso de séculos e a internet, décadas depois. Enfim, somos lerdos em imitar o que é bom. Talvez por nossa burocracia ser BURROcrática demais, talvez por que a manutenção do poder dependa da manutenção do atraso, mas isso é outro assunto. Fato é que veremos e já percebemos mudanças Trumpianas, mas algumas, por serem mais indigestas aos que ocupam o poleiro superior do galinheiro, sofrerão reação contrária e terão mais dificuldades em serem implantadas.

Veja o caso da liberdade de expressão. Por lá, antes mesmo da posse, velhos adeptos da “checagem” já a abandonavam. Aqui, se discute, com toda a força do Estado e da imprensa — esta ressentida do poder perdido sobre a narrativa — a regulação das redes sociais. A colorida cultura Woke, abraçada por várias grandes empresas, lá foi abortada. Aqui, as universidades ainda fazem palestras sobre “mulheres de próstata” e enviam e-mails com pronomes como “dilo” e “ilo”, além de promoverem competições intergêneros, enquanto, lá, a indecência de homens em esportes femininos foi castrada e a violação da biologia em nome do identitarismo, findada.

Observando os comentários durante a transmissão da posse, percebi também que muitos enviavam mensagens nominais ao próprio Trump, como se ele fosse lê-las, deixando explícito o desespero da causa brasileira ou a esperança na causa americana. Fico um pouco receoso com essa esperança meio irracional, uma ansiedade típica dos amantes que, diante do atraso da amada, possam começar a elucubrar sobre amor não correspondido e traições.

Peço-lhes, ou melhor, imploro que não esperem, a partir da posse de Trump, uma bala de prata que sacrificaria o lobisomem político ou a coroa de alhos ou, ainda, a estaca no coração do vampiro da corrupção. Paciência, mudanças virão. O mundo é tão interconectado, como uma teia, que um leve puxão em uma malha faz todo o aparato mundial reverberar em reação. But, America First, lembra?

Se posso deixar duas mensagens de esperança sóbria, diria, primeiro, que se deve esperar ondas vibratórias de inspiração estadunidense por todo o mundo, sim. Pessoalmente, tenho esperança de que essa força contrária, representada por Trump, possa também inspirar os brasileiros a se oporem a toda a loucura que o mundo tem nos proposto como o “novo normal”. O que me leva à segunda mensagem: os americanos não ficaram assistindo à degradação da sua sociedade, eles agiram. Afinal, como disse o velho Platão, o que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. Lembre-se de que a inação é uma forma de ação. Enquanto o pão e o circo ainda satisfizerem nossas ânsias mais primitivas, o caos permanecerá. Enquanto olharmos distraídos para um lado da rua, o ônibus da insanidade nos atropelará, a nós e a nossos filhos nas escolas. Sejamos nós aquilo que potencialmente nascemos para ser, sejamos melhores hoje do que fomos ontem, em alguma medida. Mude, que o mundo muda... e que os ventos gelados do Norte possam arejar nossa casa, Brasil.